O futsal em Portugal nunca poderá ser uma liga profissional
Fernando Leal, mais conhecido por Nandinho, é internacional português e já representou as cores nacionais por doze ocasiões, onze na principal e uma na “B”, é um matador nato, tendo sido por três vezes o melhor marcador do escalão principal, actualmente com trinta e três anos, actua no Futsal C. Azeméis que representa desde a época passada.

Representou sempre clubes históricos, como SC Coimbrões (3 épocas), FC Alpendorada (5 épocas), AD Modicus Sandim (5 épocas) e Boavista FC (1 época). Iniciou a jogar federado apenas como júnior de primeiro ano, onde representou o Grupo Musical Miragaia por duas épocas embora o seu primeiro clube de futsal fosse o AMZ Fontainhas mas a nível popular e foi um atleta que iniciou no futebol 11 onde representou o Sporting C. S. Vítor da freguesia do Bonfim no Porto, o Vilanovense e o CD Portugal.
Fique mais uma excelente entrevista de Fernando Parente:
Fernando Parente [FP]: Amigo Nandinho, o teu nome e o do Futsal andam juntos desde o início. Fazes parte da história do nosso Futsal mas começaste a jogar em clubes que pouco ou nada se ouve falar: AMZ Fontainhas e Grupo Musical Miragaia. O que significaram os mesmos na tua vida?
Nandinho [N]: Antes de mais obrigado pela entrevista à minha pessoa. O AMZ Fontainhas e Grupo Musical Miragaia foram os clubes mais importantes porque foi onde dei os primeiros passos no futsal e são clubes pelos quais tenho um enorme carinho, pena que já não tenham futsal em atividade.
FP: Falando ainda de clubes, acabaste por ter uma ascensão quase meteórica na modalidade e apareces no “grande” Coimbrões. Quando te falam no clube, não bate forte uma saudade em saber que fizeste parte dum projeto que tinha tudo para dar bem e que, infelizmente, também terminou?
N: Sim, saudade é o sentimento que tenho, visto que foi no Coimbrões onde tive a certeza que ia ficar na modalidade muito tempo. Tive também a sorte de apanhar pessoas muito importantes na minha carreira: o Mister Jorge Ferreira, jogadores como o Paulo Mota (dos melhores que joguei), o Paulo Marques que infelizmente já não estão entre nós, Mário Oliveira, entre outros, onde aprendi imenso com eles.
FP: Sentes que o Coimbrões foi para ti, uma rampa de lançamento na modalidade?
N: Sem dúvida, o mister Jorge Ferreira e o Luís Almeida que eram os treinadores na altura foram importantes nesse lançamento. Uma pessoa também muito importante foi o Sr. Eduardo Pinto, tanto no Coimbrões como no futsal nacional, foi uma pessoa que ajudou muito o futsal português.

FP: Luís Silva, atualmente no Mogadouro, Miguel Ângelo, Miguel Almeida no Braga, Jorge Pereira no Jaca, Milson, foram alguns dos teus colegas no Coimbrões que ainda se encontram em atividade. Era realmente o Coimbrões, além dum grande rival, o digno sucessor do famoso Miramar?
N: Sim, o Coimbrões sempre foi dos históricos da nossa modalidade. Sempre que havia jogos com o Miramar, eram dérbis com pavilhões cheios e, tanto o Coimbrões como o Miramar fazem falta ao nosso futsal.
FP: Segue-se o Alpendorada. Entre 2004-05 a 2008-09 foste uma das grandes referências do clube. Ficaste conhecido não só pelos golos que marcaste, mas pelas tuas famosas fintas a enrolar a bola, quer para um lado, quer para o outro, que deixavam os adversários atónitos com tanta qualidade. Estiveste cinco anos consecutivos na 1ª Divisão no clube, eras a principal referência e nunca houve interesse dum dos grandes na tua contratação?
N: Fui para Alpendorada porque na altura achei que era o melhor para mim. Passei lá anos muito bons, sempre fui bem tratado, tanto pelos dirigentes como adeptos. Joguei com jogadores que adorei jogar e conhecer: o Tozé, Camarão, Vítor Amorim, Emerson, etc. Fizemos boas épocas ao serviço do clube, contudo acho que estive demasiado tempo no mesmo, porque faltava algo para melhorar o meu rendimento. Contudo, era um pavilhão onde era muito difícil para os adversários ganharem lá.
FP: Jogaste em clubes emblemáticos que fizeram parte do nascimento do futsal em Portugal. Numa palavra define os mesmos: SC Coimbrões, Futebol Clube Alpendorada, Modicus e Boavista.
Históricos
FP: Mencionei esses quatro, pelo fato de dois deles terem em comum o estar extintos da modalidade (Alpendorada e Coimbrões) e os outros dois estarem a passar por fases totalmente distintas nas divisões onde se encontram. A extinção de clubes será sempre um problema em Portugal?
N: A Federação, neste caso o Sr. Pedro Dias, tem feito um trabalho notável no melhoramento da liga, contudo irá sempre haver bastantes dificuldades em muito clubes e a extinção vai continuar acontecer. O futsal em Portugal nunca poderá ser uma liga profissional.
FP: Fizeram parte do teu crescimento e afirmação como futsalista o Alpendorada e o Modicus. Mas acredito que o Boavista, pós Modicus, teve e tem um significado especial para ti, verdade?
N: Do Boavista a única coisa que posso dizer é que sempre honrei a camisola e os dirigentes não honraram a palavra comigo. É uma pena, porque é um clube histórico na modalidade. Contudo precisava de alguém mais sério no futsal e que trabalhassem para o clube e não se servissem dele. Foi uma boa experiência jogar de xadrez ao peito.
FP: Tal como o Modicus também deve ter tido, estou certo?
N: O Modicus foi o clube mais importante porque foi lá que consegui os melhores resultados tanto coletivamente como individualmente, e onde passei bons momentos.
FP: Na altura, a tua decisão em sair do Modicus para o Boavista gerou controvérsia. Queres contar aos nossos leitores o porquê dessa tua decisão?
N: A decisão foi logo mal vim da Ucrânia. Vi que o agradecimento não existe no desporto na maior parte das vezes. Decidi sair porque tinha acabado o meu ciclo no Modicus e como não gosto de estar acomodado em nenhum lado… Pena é que praticamente todos os jogadores que saem do Modicus, saiam chateados sempre com a mesma pessoa, mas o Modicus não é só uma ou duas pessoas e estará sempre no meu coração.
FP: Acredito que a famosa dinastia dos “Guedes” te tenha custado a deixar, pois vocês eram como uma família. Saudades desse tempo?
N: Sim. Custou porque deixei um balneário dos melhores que apanhei e isso é muito importante para obter bons resultados, mas sabia que um dia tinha de ser. Ficam as memórias de grandes momentos.
FP: Dois títulos da 2ª Divisão Nacional, finalista duma Taça de Portugal, duma Supertaça e algumas participações em finais four. Qual o título, a nível coletivo até ao momento, que mais perseguiste e ainda não conseguiste alcançar?
N: Sinceramente, uma Taça de Portugal, porque ser campeão é muito difícil, para não dizer impossível. Uma Taça de Portugal fica mais acessível com sorte no sorteio e depois é apenas um jogo na final, onde tudo pode acontecer e até esteve perto, quem sabe no futuro.
FP: Foste por três vezes o melhor marcador da Liga, uma delas empatado no número de golos com o Cardinal. Alguma vez, após essas situações, chegaste a pensar: “é agora, vou dar o salto”?
N: Dar o tal salto, já estive perto de o fazer. Contudo, não aceitei na altura as condições que me colocaram. Não podia deixar o meu trabalho e a minha família só por interesse meu e com condições que não compensavam ser profissional. Não estou nada arrependido, quero é jogar onde me sentir bem porque um dia acaba o futsal e temos de continuar a nossa vida.
FP: Sobre a nossa Seleção, o que achaste da participação no Mundial da Colômbia?
N: Sinceramente, pensava que íamos chegar mais longe visto que estava tudo a correr de forma a chegarmos á final e perdemos uma boa oportunidade de tal feito.
FP: E a tua participação no Mundial 2002 na Tailândia, foi o culminar de um sonho?
N: É o sonho de todos os jogadores chegar ao mais alto patamar e o campeonato do mundo foi mesmo o topo da minha carreira. Chegar ao mundial da forma que cheguei só me fez sentir orgulhoso, porque para um jogador que trabalha de dia e treina á noite não é fácil chegar a esse patamar. Só com trabalho e com a ajuda dos colegas de equipa e claro, nunca desistir.
FP: O não fazeres parte já há algum tempo da Seleção, achas que teve a ver com a decisão de teres ido jogar para a 2ª Divisão?
N: Se não fui chamado no ano antes de ir para o Azeméis, onde estava na liga no Boavista, onde fui o melhor marcador da Liga Sportzone, não iria ser chamado ao ir para a segunda divisão. Nem sequer me passou pela cabeça. Se fosse outro seleccionador teria sido chamado quando estava no Boavista, porque na minha maneira de ver, tem de ser chamado quem está melhor no momento e cá em Portugal basta jogar no Sporting ou Benfica, jogando muito ou pouco, bem ou mal, são sempre chamados. Mas há coisas no futsal que quem está por dentro sabe que isso não conta para nada, é o processo.
FP: O estrangeiro nunca te seduziu?
N: Seduziu-me, contudo a aventura que tive na Ucrânia não correu bem por causa de uma lesão e tive de regressar, já era o destino.
FP: Futsal Azeméis, o teu atual clube. O objetivo é manter na Liga?
N: O Futsal Azeméis trouxe-me a alegria novamente em jogar futsal, é um clube sério. O objetivo é ficar na liga durante muitos anos, porque as pessoas de Oliveira de Azeméis merecem.
FP: O regresso do Arnaldo, do Emerson e do Luís Miguel a Portugal estão a revelar-se mais-valias para o Futsal Azeméis nesta estreia na Liga Sportzone?
N: Óbvio que são mais-valias para o Futsal Azeméis. Vieram acrescentar qualidade e sobretudo experiência, visto que é o primeiro ano do clube na liga e contamos com eles para ajudar o clube a ficar na mesma.
FP: E o futuro, que te diz?
N: O futuro próximo passa por jogar enquanto achar que sou útil. Depois logo se verá, contudo quero ficar ligado ao futsal.
FP: Amigo Nandinho, deixaste ou tens algo a dizer que não tenhas referido nas questões anteriores?
N: Apenas agradecer novamente esta oportunidade e desejar-te tudo de bom. Continuação de bom trabalho, sempre em prol do futsal. Grande abraço.

Agradecimento ao Desporto Em Linha / Momento Certo Fotografia pela cedência das fotos onde estão assinaladas com DEL/MCF.