Vinte e seis anos ao serviço do seu CAS
Após vinte e cinco anos como presidente do Clube Académico de Sangemil, agora como diretor no seu “menino de ouro”, Joaquim Reis já leva de associativismo perto de quarenta anos, no alto dos seus cinquenta e seis anos, tendo iniciado o dirigismo aos dezassete noutro clube da terra o Mocidade Sangemil, para além destes dois clubes também representou o GD Águas Santas e o Pedrouços como treinador e mais tarde o Amanhã da Criança.
Iniciou no futebol 11, foi dirigente e treinador, depois veio o Futebol de Salão e é um dos sócios fundadores em 1990 do clube Académico Sangemil clube que faz a transição para o futsal, onde deu a vida e continuará a dar nestes últimos vinte e seis anos, fique com a entrevista de Fernando Parente a um dos “monstros” do dirigismo distrital e nacional.

Fernando Parente [FP]: Presidente Joaquim Reis, 25 anos à frente do clube que formou com mais dois amigos, é obra. O sonho tornou-se realidade?
Joaquim Reis [JR]: É verdade. O mais complicado foi conseguido numa caminhada difícil, felizmente suportada com alicerces firmes e fortes para que o futuro não pudesse ser hipotecado. Logicamente, outros sonhos estarão nos horizontes de quem na verdade tem a missão de querer o melhor para o clube, mas, genericamente, o sonho foi sem dúvida nenhuma realizado.
[FP]: O que recorda destes 25 anos à frente da coletividade conhecida por CAS, o Clube Académico Sangemil?
[JR]: Neste quarto de século, muitas foram as coisas boas que seria difícil estar a privilegiar umas em relação a outras, mas sem dúvida que a construção da nossa sede social com a ajuda da CM MAIA, a obtenção do estatuto de Utilidade Pública então atribuído pelo Primeiro-ministro, Eng. António Guterres e as grandes conquistas futsalísticas que fomos tendo ao longo dos anos são sem dúvida os mais significativos. Mas mais que tudo, a nossa missão de serviço para as centenas e centenas de atletas que ajudamos a formar durante este tempo, são o que representa de maior valor neste trajeto.
[FP]: O Presidente está ligado ao associativismo desportivo desde quando?

[JR]:Desde 1977 começou a minha aventura no mundo associativo, ou seja, há quase quatro décadas começou esta aventura.
[FP]: Sei que, antes do projeto CAS, o Presidente esteve ligado ao Futebol de 11. Águas Santas, Pedrouços e Mocidade Sangemil, o que representam para si esses três clubes?

[JR]:Todos, realidades diferentes. O GDAS que marcou mais sem dúvida, enquanto treinador que representei aquela instituição. Deixei um trabalho digno, marcante quanto aos resultados, e que me orgulhou ter efetuado enquanto representei o clube. Um clube de gente séria e muito honesta e que recordarei para sempre a pessoa do Sr. António Queirós que infelizmente já não faz parte do mundo dos vivos. Do Mocidade de Sangemil, onde estive também alguns anos, quer como dirigente quer como treinador...é o clube da minha terra. Onde nasci e onde me fiz como Homem. Com 17 anos de idade era Vice-Presidente da Assembleia Geral. Cargo que ocupei pela primeira vez no meu historial. Depois, vários cargos diretivos, entre os quais presidente de direção, e mais tarde, como treinador das camadas jovens, e depois, da equipa sénior a disputar o campeonato de amadores. No Pedrouços, estive um ano como treinador dos juniores, onde ganhei boas amizades.
[FP]: Alguma conquista ou história que mereça ser recordada num desses clubes mencionados?

[JR]:O maior feito foi conseguido no GDAS aquando da subida ao campeonato nacional de juvenis. Um feito nunca alcançado até hoje na história do clube. E esse recordarei para sempre com muito orgulho! Formamos uma equipa que arrastava multidões
[FP]: Na altura, no Futebol de 11, a partilha de conhecimentos entre Treinadores era constante?

[JR]:Na ocasião, recordo-me que essa partilha praticamente era inexistente.
[FP]: Do Futebol de 11 salta para o extinto Futebol de Salão, tendo representado o Amanhã da Criança. Como foi, passados estes anos todos, ter passado pelo maior rival do clube que formou?

[JR]:Acontece que quando representei o AC, o fazia também partilhando outras atividades no futebol de 11. Efetivamente a mais de uma década que tive o gosto de representar o AC foi um tempo recheado de sucessos, glórias, conquistas, onde chegávamos a ser chamados de “papa torneios”. Foram anos brilhantes e onde deixei um trabalho marcado pela qualidade e a descoberta de muitos talentos.
[FP]: Existe algum misto de sentimentos entre o património que ajudou a conseguir no Futebol de Salão e aquele que conquistou no Futsal ao serviço do “seu” Clube?

[JR]:No princípio foi estranho, porque nunca se pode apagar o passado principalmente quando esse passado é de glória. Mas, as diretrizes dos clubes vão-se alterando de acordo com os princípios das pessoas que os dirigem, de tal modo que estando em disputa os mesmos interesses, as realidades passam a ser diferentes com as consequências que lhes estão implícitas.
[FP]: Qual foi o sentimento que teve quando, aos 30 anos de idade, teve de deixar de fazer uma das coisas que mais gostava, neste caso, deixar de treinar?

[JR]:No princípio foi complicado, porque sentia-me como “um peixe na água” ao fazer uma das coisas que mais gostava. Mas sou dos que pensam que, ou se está nas coisas a cem por cento e de corpo inteiro, ou então, não estamos. Por isso, a opção foi mesmo deixar de continuar a exercer uma atividade que tanto gostava. Passado algum período de reflexão surgiu então a ideia de criar um clube que em primeira instância estivesse vocacionado para servir os mais jovens pois na nossa zona existiam vários clubes, mas quase todos vocacionados para a vertente sénior.
[FP]: Acredito que a família aqui, nessa situação, tenha tido um papel importante para o ajudar a ultrapassar esse grande “desgosto”, se assim lhe posso chamar?

[JR]:A família cedo se apercebeu que uma das minhas grandes paixões era a ligação ao desporto. E cedo também compreendeu que eu estando bem, a família também estaria. É evidente que é complicado, damos muitas vezes mais horas ao clube do que à família, mas nada que não se conseguisse resolver ao longo de todos estes anos.
[FP]: Deixou, como referimos atrás, de treinar equipas, mas o “bichinho” e a paixão pelo desporto em si manteve-se acordada. É nesse momento que surge a criação do CAS?

[JR]:Depois de um curto período de reflexão esse sentimento foi-se adensando e com a comunhão de esforços e vontades de alguns amigos, foi decidido avançar com o projeto.
[FP]: Os amigos que fundaram consigo o CAS, como foi a reação deles perante a ideia de criar um clube?

[JR]:Basicamente os amigos partilhavam comigo ideias e princípios de vida em comum, e que se identificavam em torno do mesmo ideal. Por isso foi muito fácil colocar em prática a ideia deste projeto.
[FP]: Eles fazem ainda  parte do mesmo, tal como o Presidente, mas em outras funções. A virtude que une os três é mesmo “servir” o Clube Académico Sangemil?

[JR]:Sem dúvida nenhuma. O Manuel Veloso é um fiel companheiro de longa data e que ainda hoje continua no clube com as mesmas funções de há 26 anos a esta parte. O Hermenegildo Jorge agora, mais maduro (a idade não perdoa), está com outra dinâmica e que o que impede da vitalidade de outros tempos. Mas mesmo assim, como fundador, continua comigo no conselho fiscal.
[FP]: E qual o significado para os três da escolha do lema: “servir a juventude”?

[JR]:Como atrás disse, aquando da fundação desta instituição, entendíamos que em Sangemil, havia uma lacuna muito grande no que ao trabalho com a juventude diz respeito. O Futebol e o Futebol de Salão seniores, eram o pão nosso de cada dia, por isso achamos que o nosso trabalho devia incidir sobre um segmento da população que estava algo abandonada. Servir os jovens. Foi por isso a ideia que presidiu à fundação do nosso clube.
[FP]: A 30-09-1990 surge o CAS. Sendo parte integrante da AF Porto, quais as dificuldades inerentes a um projeto como o que vocês fundaram?

[JR]:A burocracia necessária para quem quer começar o que quer que seja era tremenda. E não foi fácil assegurar e reunir todas essas formalidades exigidas para a filiação e organização do clube. Ainda por cima éramos poucos no início… o que complicava as coisas. Mas, quando a vontade é muita, não há dificuldades que impeçam o que se pretende.
[FP]: Quais os títulos ou classificações atingidas pelo CAS que o motivaram a continuar à frente do mesmo clube por tanto tempo?

[JR]:Mais que os títulos, foram o gosto, o gozo, e o prazer, de ver que o nosso trabalho era bem recebido, e a validade do mesmo era um facto. Paralelamente as entidades que superentendem os vários poderes ou órgãos institucionais, desde cedo se mostraram ao nosso lado, e desde a primeira hora nos apoiaram e acreditaram no nosso projeto. Essencialmente, da CMMAIA nas pessoas do Dr. Vieira de Carvalho e Eng.º Bragança Fernandes, nossos sócios honorários, foram figuras ilustres e muito importantes para a nossa afirmação enquanto coletividade. Consequentemente, os títulos com a dinâmica empreendida chegariam com alguma naturalidade.
[FP]: Sente que o “seu” clube foi sempre valorizado pelos feitos cometidos, quer pela AF Porto, quer pelo Município da Maia?

[JR]:Sem dúvida nenhuma que da nossa autarquia fomos sempre muito bem tratados, muito apoiados, reconhecidos, e tivemos sempre o gosto de dignificar e honrar o seu nome nas nossas representações. Temos muito orgulho em afirmar dentro e fora de portas, como já estivemos, em afirmar a alto e bom som, que somos de Águas Santas, Maia. Infelizmente da AFPORTO não podemos dizer o mesmo. Somos dos que pensam, que o Futsal na nossa AFPORTO é apenas um parente pobre numa família grande, onde o futebol é rei.
[FP]: Teve vários mandatos seguidos para chegar aos 25 anos ininterruptos na liderança do CAS. Nunca teve um momento em que pensou desistir?

[JR]:Mentiria se dissesse que nunca pensei em desistir. Ao longo destes 25 anos, quase 26, nem tudo foram rosas. Com mandatos de 2 em 2 anos, fui sendo reeleito sistematicamente algumas vezes contra uma vontade própria em continuar. Mas os interesses do CAS estiveram sempre à frente dos meus. E o entre deixar o clube num marasmo, e o dar-lhe a devida continuidade, sempre optei pela continuidade. Não me arrependo disso.
[FP]: Qual o sentimento que fica após esses 25 anos?

[JR]:Essencialmente o sentimento de dever cumprido. Dei tudo por tudo o que estava no meu alcance. Fiz tudo por tudo por dignificar e honrar as nossas cores. E com a convicção de que servi o clube sem nunca me servir dele. Essa é a minha maior vitória.
[FP]: Saiu no final da época passada da presidência do clube, mas continua ligado ao mesmo, mas como Presidente do Conselho Fiscal. Continuar no clube, é o coração a falar mais alto?

[JR]:Sim. Não me consigo ver desligado do clube. Esta pausa que entendi fazer nas “lides” futsalísticas, porque a saúde estava vacilar, será certamente benéfica para ter oportunidade de carregar algumas baterias que há muito deveriam ter sido carregadas.
[FP]: Presidente, CAS, até quando?

[JR]:Enquanto tiver força. Enquanto me sentir útil. Enquanto as pessoas entenderem que a validade da minha ação é importante para a instituição.
[FP]: O Presidente quer dizer algo aos leitores e seguidores do Futsal Porto Distrital, que não tenha sido referido nas questões anteriores?
[JR]: De uma forma geral dizer que sermos úteis para o meio e sociedade em que estamos integrados é um dos maiores patrimónios que podemos ter enquanto andamos neste mundo. Durante esta vida arranjamos algumas inimizades, criamos alguns mal entendidos, suportamos algumas faltas de caráter e até de educação, mas, como em tudo na vida, o ”todo é muito maior que a parte” pelo que ter a consciência plena de que a nossa missão de serviço foi válida para quem servimos é um valor que não tem preço.
Termino agradecendo o convite do mister Fernando Parente e ao meu particular amigo Artur Moreira para a realização desta entrevista, que já havia sido feito a alguns tempos atrás, aproveitando o ensejo para desejar a todos os amantes do futsal e aqueles que verdadeiramente são apaixonados pelo mesmo, bons momentos desportivos.

 

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